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Elogio da Corrupção - Marie-Laure Susini

Marie-Laure Susini

“Elogio da corrupção”¹

Comentários de Lélia Dias ²

 

Sob as boas intenções, o perigo

O livro de Susini traz uma minuciosa elaboração, que se transforma em um grito de alerta.. O livro combate as doutrinas que se fundam na incorruptibilidade. As doutrinas, os sistemas de pensamento e de justificação adotados pelos regimes totalitários. A corrupção como insulto, como veredito está no cerne do funcionamento destes sistemas.

A atualidade: é urgente se opor à ideia de uma “cruzada contra o mal”. Bush e o terror do Estado Islâmico, Daesh...

A questão: será que essa ideologia que permite afirmar sua própria integridade (isto de chamar à purificação, à virtude), e se atacar à corrupção, sempre a do outro, tornaria toda sociedade liberticida, transformando-a em um instrumento totalitário?

O livro de é um ensaio de história política. Utilizando as ferramentas da psicanálise, a autora vai explorar os subterrâneos de uma noção complexa: a corrupção. A história e a evolução do conteúdo desta palavra desenvolvem-se em três eixos.


¹ M-L Susini, Elogio da Corrupção, edição francesa

² Apresentação feita no espaço “Laços com a Cidade” do Aleph Escola em 14/05/2016

Primeiro eixo:
“É antes de tudo uma tentativa de investigação do mal estar paranoico da civilização”, anuncia Marie-Laure Susini.


A paranoia coletiva

Susini nos fala de sua experiência no serviço psiquiátrico com paranoicos perigosos, pacientes assinalados na psiquiatria francesa no início do século XX: paranoicos violentos, às vezes homicidas, que agem como se fossem idealistas apaixonados. Justiceiros, que se propõem a erradicar o mal. Agem de acordo com um ideal, então. Estudando a estrutura desse delírio idealista e os fatores de sua periculosidade, Susini vai refletir sobre uma estrutura elementar dos paranoicos coletivos.

A acusação de corrupção do Outro é uma constante dos delírios paranoicos idealistas, e vamos reencontrá-la em todas as ideologias coletivas totalitárias: é sempre, uma categoria da população que é denunciada como corrompida. É a corrupção do Outro que é apontada (tanto com um grande O como o outro com um o minúsculo).

Um percurso que não saberia ser imprudente

Marie-Laure Susini é psiquiatra, e atuou durante longos anos nos serviços judiciários como psicanalista, escutando paranoicos. (O autor do crime perverso). Esta experiência permite a ela escrever reconstruções ficcionais sob a forma de narrativas de lembranças de infância, aspirações e confissões de personagens históricos: George Orwell, Thomas Moore, Robespierre. A autora nos retraça também três narrativas de vida: Sieyès, Marat, Mirabeau. São personagens complexos e percebe-se neles, muito bem delineadas, as incompatibilidades de caráter e de ideologia. Ainda se pode desvelar aí pontos comuns entre ideologias que raramente são comparadas, além da proximidade conhecida entre a escrita de Rousseau e a posição de Robespierre na Revolução Francesa.

A escrita de M.-L. Susini

Os sistemas de pensamento desenvolvidos pelo inquisidor Heinriche Krämer, Robespierre ou ainda Thomas Moore são, um por um, descritos   naquilo que têm de perigoso e de excessivo. Exemplos de um pensamento que faz da corrupção um critério de triagem entre os bons e os maus e confere passaporte à prisão, à guilhotina, à expulsão, à exterminação.

Marie-Laure Susini articula a História à sua experiência, e faz “ficção teórica”³. (De Certeau, sobre Freud e seu método histórico) Ela quer obter uma reação do leitor, colocá-lo em busca de argumentos, fazê-lo verificar constantemente o que parece discutível, ou não. Exercício arriscado. Sem trégua. Um estilo de escrita que não prevê introdução, nem preparação a uma síntese conclusiva. Um encaminhamento diferente. A não inocência de um “imprudente percurso”4.

O conteúdo nos chega em bloco, e é proposital. A escrita de Susini faz coincidir desenvolvimento e conclusão. Os personagens evocados constroem seu pensamento ao longo do livro. Ela nos faz voltar no tempo e nos conduz ao nascimento da incorrupção. O neologismo é de Paulo de Tarso, um judeu convertido que se torna Paulo, cidadão romano, o pai da cristandade. Voltaremos a isto.

George Orwell, rebelde à inocência

Em seu primeiro capítulo, M-L Susini traz pinceladas da personalidade de Orwell e retira de sua obra  conceitos e instrumentos e com eles vai analisar os regimes totalitários.

Orwell não foi  profético quando escreveu “1984”, a realidade do stalinismo tinha sido denunciada por outros autores.


³Michel de Certeau, A Escrita da História, Paris, Gallimard, 1975, p. 313

4M-L Susini, Elogio da Corrupção, p. 272

A autora nos fala de sua hesitação no momento de escolher entre “1984” de Orwell e “O Zero e o Infinito” de A. Koestler que trabalha também sobre a ciência contemporânea e sobre a epistemologia. Koestler tornou-se o grande aliado de George Eric Arthur Blair, o verdadeiro nome de Orwell.

O que uniu os dois escritores foi a necessidade comum de escrever na urgência.

Orwell não foi profético quando escreveu “1984”, a realidade do stalinismo tinha sido denunciada por outros autores.. Sua própria experiência nos meios anarquistas da Catalugna, também contou enormemente. Contrariamente aos incorruptíveis idealistas, Orwell jamais é denunciador. Ele teve a coragem de considerar - com impiedosa crueldade - essa lógica totalitária de inocência coletiva: ordas bem adaptadas à saudável moralidade do grupo, homens novos, reeducados e ordinários inocentes formando exércitos que combatem a corrupção dos outros. São soldados ou civis com seu supereu submetido à conformidade ao grupo, cujos atos estão submetidos à decisão do chefe.5

É a mesma ideologia da salvação coletiva que produz monstros, seres capazes dos piores crimes, capazes de obedecer à ordens de exterminação. Seres cujas decisões monstruosas são dirigidas pelo caráter banal de obediência às regras, como nos mostra Hanna Arent.

Um humano exemplar

“1984” é um romance construído à partir das experiências do totalitarismo revolucionário natural do homem antes de qualquer coisa submetido ao tempo que passa... Orwell nos conta simplesmente que somos mortais, imperfeitos, agindo em um mundo real

Imperfeitos, o que quer dizer também culpados. Orwell aceita sua culpabilidade, renunciando à inocência, blindado que era contra toda tentativa de ter a consciência limpa. “Para tanto foi preciso conseguir ser um humano desnudado, se oferecendo a seu próprio olhar como desmunido, e ver diante de si a miséria e a decadência de um corpo já morto pela metade (p. 29)

 “A análise do totalitarismo por Orwell se constrói sobre o voto de eternidade coletiva do estado”, escreve Marie-Laure Susini. “Ele recusou a imortalidade coletiva da virtude (p.43). A mensagem essencial do trabalho de Orwell, lembra Susini, é a admissão da culpabilidade subjetiva, isto que constitui o que resta de humano em cada um”.

E nos vem a vontade de reler “1984”. Ir depressa ao encontro de Orwell, este “humano exemplar”. Correr para reencontrar “Winston Smith” que se agarra ao pecado, face à ideologia da instabilidade coletiva.

Winston Smith luta para continuar a crer em suas lembranças individuais, para continuar à crer no real dos fatos. Ele quer continuar à ser humano: imperfeito, culpado e mortal!

Não ceder ao fantasma de pureza e de imortalidade. O partido, ele é imortal. O algoz vai fazer W.S. confessar.

Porque sera que o algoz, não importa qual algoz, se aplica tanto para obter uma confissão? E sobretudo de que confissão se trata? Orwell se colocava a questão desde que tinha lido o “Zero e o Infinito”, conta Susini, fazendo saber que a pergunta vem de Koestler. E ela responde à Koestler com Orwell (e com Lacan também, eu diria). É a questão essencial que continua ainda hoje e para sempre.

O gozo do inquisidor

“O mesmo fantasma faz agir todos os inquisidores: extrair do corpo a pegada de um gozo singular para aniquilá-lo. Extrair do corpo a confissão de um gozo, em nome da imortalidade das almas e das sociedades. Separar o imortal do mortal, a alma do corpo, o incorruptível do corrupto. Espreitar a parte feiticeira, herética, pecadora, extraí-la da identidade coletiva, da moral coletiva. Quebrar para reeducar. Queimar para purificar?

Não escrevi este livro me pensando psicanalista, mas eu sou psicanalista também. Será que um não-psicanalista poderia escrevê-lo? Utilizo essencialmente algo que guardo de Lacan: o fantasma, a relação do sujeito ao objeto, e este é verdadeiramente um pensamento da minha reflexão sobre o mundo.”

Partindo de sua reflexão sobre o mundo Susini vai constatar a terrível lógica do fantasma do sujeito (suposto) puro que quer a todo preço exterminar os impuros, os corrompidos, os nocivos.  

A eternidade, a imortalidade e a inocência

“Confrontado sem trégua à degredação e à morte, levantando os olhos maravilhados acima da miserável necessidade, para a abóboda celeste, o homem aí encontrou a ideia de incorruptibilidade. E  forja assim a hipótese da imortalidade.”

Pela linguagem o homem separou o mundo em dois. Separou o corruptível do incorruptível. A imperfeição, a finitude e a morte estão reservadas aos humanos. A eternidade e a perfeição infinitas ficam reservadas aos seres celestes, aos astros e à Deus.

A Eternidade não se unifica pela experiência. Nem todos creem em Deus. A essência da Eternidade e da perfeição permanece. O homem, com a dor, se reconhece imperfeito e se aflige de sua natureza tanto má quanto mortal.

Constatando a implacável natureza corruptível do vivente, o homem se opõe à essência, à ideia, ao princípio abstrato de incorruptbilidade.

Uma outra dimensão: a negação

A função da linguagem é trazer a negação. O humano graças à linguagem pensa um outro espaço, uma outra dimensão. Uma entidade simbólica. O real da corrupção e o simbólico do incorruptível (o princípio) se encontram assim separados (214-5).

A corrupção se opõe ao princípio da Eternidade. Ou à Deus, que é um dos nomes do princípio do Incorruptível, e um dos nomes da Eternidade.

A incorruptibilidade significa a vida eterna, os mortos ressuscitariam. A ressurreição de Jesus já o anunciava. Com Paulo, ela significaria também que o homem teria sido liberado. O término de um processo que se passaria em dois tempos: condenação primeiro e depois perdão. O efeito deste perdão se verificaria pela realidade da incorruptibilidade. Magnífica reviravolta decisiva do pensamento: a imortalidade pela eternidade (p. 234).  O julgamento final vai efetuar a operação de triagem. De um lado os incorruptíveis, os merecedores irão ao paraíso, de outro lado os corruptos que irão ao inferno.

As três significações paulinas do incorruptível: o homem fica liberado da corrupção originaria, lavado de toda acusação, e para a eternidade, imortal.

O neologismo de Paulo
O antissemitismo, o segundo eixo do livro é dado por São Paulo. “Entre a paranoia coletiva e as questões levantadas em torno de São Paulo, se coloca minha reflexão sobre o antissemitismo como paranoia coletiva. Trata-se de um trabalho sobre a estrutura do antissemitismo”, que não vai aparecer pouco no “Elogio da Corrupção”, mas que absorveu bastante o esforço da autora. Trabalhando longo tempo sobre esta estrutura a questão se colocou: em que, a origem da cristandade continha já o antissemitismo?”

Interessei-me à questão, esclarecida que fui por Freud em sua elaboração, ao falar da origem da religião cristã : “O pecado original e a aquisição, através do sacrifício de uma vítima, tornam-se os dois pilares mestres da nova relação fundada por Paulo.”

São Paulo é o primeiro (nos textos disponíveis) que interpreta a mortalidade do homem. Que o homem seja mortal, o que é um fato real, Paulo interpreta de maneira imaginaria como uma falta, um pecado, como a consequência de uma falta: uma corrupção do homem.   

Paulo é também o primeiro que desloca a significação do corrupção da palavra grega phtora, utilizada por Aristóteles (da corrupção e da generação). Pois phtora em grego designa somente o real, a putrefação do corpo do vivente depois da morte. Paulo vai dar uma significação imaginaria à esta palavra atribuindo a corruptibilidade do corpo, a corrupção do corpo, ao imaginário da falta, à um defeito da criatura.

 “A corrupção, a phtora, é um fenômeno físico que não se negativisa. Não se sabeu uma afirmação de inexistência ao real. Nem negar a phtora Paulo inventa a palavra aphtarsia, cria um neologismo, a palavra incorrupção. Aphtarsia foi traduzida por incorruptibilidade. O neologismo se impôs.”

Assim Paulo pensou o inconcebível. Ele inventou a incorruptibilidade do corpo. Aphtarsia pela qual vai enodar a dupla volta infinita da inocência e da falta. Todos as significados conduzem a isto, e todos nascem daí; todas as suas associações levam à incorruptibilidade, e toda sua lógica tem origem na incorruptibilidade

Simbólico, Real e Imaginario

Tanto nas construções de Paulo quanto em sua elaboração subjetiva, Susini apreende o ponto onde elas se enodam:

- a função simbólica do julgamento, do perdão e da liberação;

- o real doloroso da criatura destituída e mortal, comprimida entre a culpabilidade e a angustia;

- e o ideal imaginário de uma promessa de vida para toda a humanidade. A incorruptibilidade enquanto ela se aplica à realidade de uma vida humana, é imaginaria, a imagem ideal da inocência. (Ver o texto de Kazantzakis p. 332).

 É muito importante, insiste Susini, poder decretar por exemplo, uma categoria, um conjunto que seja imortal, mas o fato é que se continua a morrer. Então é preciso uma causa para a morte: imagina-se os corruptos. À categoria imaginaria dos incorruptíveis, dos imortais, dos inocentes, corresponde a categoria imaginaria dos corrompidos. O corrompido é uma categoria que fica na interseção do imagnario e do real (pois a morte, ela, é real).

A cristandade se construiu com São Paulo sobre a crença na ressurreição do corpos e na crença em Jesus, e sua missão redentora. Jesus que salvou da condenação à morte (que segundo Paulo) é o castigo de Adão. E porque se crê neste dogma se é cristão.

Há os que creem na ressurreição dos corpos e há os que não creem. A incorrupção do corpo é uma negação do real. Uma crença que faz parte do imaginário dos cristãos. Os judeus não creem nisso. Continuam a negar a ressurreição dos corpos. Não se colocam no conjunto dos incorruptíveis, daqueles que ressuscitarão. Então, eles serão designados como corruptos. 
Certamente é uma lógica delirante, mas podemos apreender aqui a lógica de tantos delírios...

Neste livro, diz M.-L. Susini, fiz um enorme trabalho para reconstruir entre Imaginario, Real e Simbólico na doutrina de Paulo, à partir da revelação, da voz que lhe atinge de cima em Damas. A crença na incorrupção dos corpos deixa um resto, um resíduo que é evidentemente a morte, e é  por isso ques judeus serão sempre acusados, ao longo dos séculos, de serem os corruptores, os que trazem a morte, os que envenenam, os que contagiam, os que gozam do sexo e do dinheiro, e tudo isto é de certa forma o protótipo das acusações de corrupção. Nas acusações que são fortemente evocadas em imagens, sempre se associa os corruptores ou os corrompidos - que variam segundo as épocas - à putrefação do corpo, ao pecado, ao gozo abusivo. Não é de fato uma construção em torno somente de um imaginário, mas em torno de uma verdade lógica. Terrível lógica delirante.

Susini analisa o totalitarismo como uma aplicação política de delírios paranoicos. Para ela a corrupção é o ponto de cruzamento das denúncias delirantes de idealistas apaixonados, de justiceiros... Tal política é o pretexto, é a causa de “passagens ao ato” violentas sobre os denominados persecutores. As vítimas da violência (em geral coletiva) destes justiceiros, sempre são denunciadas cada vez como corruptas. É uma constante: a corrupção dos hereges, dos judeus, das feiticeiras, dos aristocratas dos burgueses. 

Uma utopia fundada na ausência de desejo

São Paulo? É preciso compreender bem que não é ele que é paranoico e que alias, colocar esta questão não tem interesse algum. A Inquisição, a exterminação dos hereges não foram previstas pelo fundador da doutrina cristã.

A releitura de Paulo dos textos da Genêse, a desobediência de Adao que ele interpreta como uma queda, funda uma crença: ser mortal é a consequência de uma falta. A exclusão do Jardim do Éden, que poderia ser pensada como um nascimento para o mundo, uma escapada em direção à liberdade e à responsabilidade do homem, é interpretada como uma destituição.   

Toda a teoria de Paulo tende a fazer o homem reencontrar, pela mediação de Jesus, a inocência originaria que ele atribui à eles no momento da criação. Uma inocência suposta, então.

Estudando os diferentes totalitarismos ao longo da Historia, a cristandade e suas cruzadas de massacre, a Utopia de Thomas Moore (redenção pela privação do desejo e do objeto de gozo, um lugar isolado do mundo e de sua temporalidade...), A Revoluçao Francesa (e a purgação da aristocracia e de tudo o que não correspondia à linha revolucinaria), a ficção futurista de Orwell (e a instalação do poder soviético e nazista, todas a guerras de epuração étnica, Guantanamo, destruição em massa, etc, etc...) a autora do “Elogio da corrupção”, vai definir totalitarismo como uma ideologia que pretende levar o homem de volta a uma inocência originaria. Ou, a um estado originario de perfeição.

Para alcançar tal estado, transforma-se o homem, o que se visa é depura-lo. É a estrutura de todo pensamento totalitário, diz Susini. Levar o homem a um futuro que é ao mesmo tempo um retorno à origem...

O mito platônico que permitiu à Freud pensar a pulsão é aqui invocado para nos esclarecer sobre este retorno a um estado anterior (ver Le Brun)

Mesmo que não pudesse antecipar a perversão que ali iria se aninhar, São Paulo em sua contribuição à criação da Igreja guarda em seu cerne uma semente totalitária: a crença em um Deus perfeito, a perda original de Adão, que insiste no arrependimento...  Desta ideia da perda da inocência acoplada à triagem e à seleção entre os humanos, os sucessores de Paulo na história fizeram o pior. De toda forma, vale lembrar que não há integrismo religioso que não denuncia com violência a corrupção de um outro.

A inocência só existe no simbólico

À que ponto o Incorruptivel, o Imortal, a Inocência, é um efeito da linguagem, do simbólico? O imortal não existe, só existe o simbólico. No real, só conhecemos a morte. A perfeita eternidade só é abordável pela linguagem, é uma negação que que recai sobre o real, é verdadeiramente simbólico.

O vivente é mortal, e graças à linguagem podemos vislumbrar que há  um in-mortal (uma negação). Todo ser vivo é nocivo à outros seres vivos ao assegurar sua sobrevivência orgânica. A inocência só existe no simbólico.

Um dos efeitos pernicioso do totalitarismo ideológico é querer impor o retorno coletivo à inocência originaria. O retorno do povo à inocência engendra tribunais de exceção

O Inquisidor sonda o seu coração. Inesquecivel e feroz, ele extrai a mínima reprovação que possa vir de você. Ele é sua justiça íntima, sua consciência culpada, sua culpabilidade. Diante dele, as almas dos defuntos chegam trêmulas confessando logo todos os seu pecados, sem que ele tenha que interrogá-las. Juiz supremo do Julgamento Final.  

A lei da corrupção universal

A linguagem não opõe os incorruptíveis aos corruptíveis, mas aos corrompidos, (aos corruptos, como dizemos frequentemente). O terceiro eixo do livro de Susini, é a possibilidade de frequentar a lógica de cada construção e, por exemplo, confrontar, o princípio da incorruptibilidade à natureza do real, a decomposição dos corpos. É preciso que se saiba que não só o corpo vivo surge no estado de corrupção, como não há nenhuma causa particular para isso. “Sou corrompido e não é por que houve um agente corruptor”, como querem Paulo (pelo pecado) e Rousseau (pela sociedade). Supor uma causa da degenerescência é o que nos à acusação.