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Fantasma e desejo - Solal Rabinovitch

Do real ao fantasma… e o desejo. 

Anos depois do final de sua análise, uma paciente retorna a me ver para me contar três pesadelos. Estes pesadelos surgem em um céu que tinha se tornado sereno, e até mesmo feliz; ela tinha enfim aprendido moderar seu corpo, como a análise lhe havia permitido moderar a linguagem Real (do corpo) e Simbólico (da linguagem) estavam então bem no lugar desde o final da análise; além disto, ela tinha se apaixonado logo depois (e o imaginário podia agora se enlaçar aos dois outros). Os dois primeiros pesadelos ocorreram quando ela dormia sozinha, o terceiro quando o namorado dormia ao lado dela.

É cada vez uma presença ameaçadora sombria, amedrontadora e muda, uma presença que ela nomeia de um "ele": ele está atrás da porta, ele gira lentamente a maçaneta sem abri-la; ou, pior ainda, "ele" está sentado ao lado dela na cama, no escuro, massa informe silenciosa, fazendo com que ela transpire de terror. No terceiro pesadelo, ela decapita "todos" os homens com uma machadinha e os corta em pedaços em seguida, sempre com sua bela machadinha brilhante.

O "ele", não seria mais uma “Ela” primordial, lhe disse eu, uma mãe primitiva, um gozo a recalcar? Tento ocupar a zona silenciosa e opaca que separa o real (da angustia) e o fantasma (um homem vem se assenta). Mas será um fantasma ou uma alucinação? Freud escreve no Projeto: "fecha-se os olhos, e se alucina, abre-se os olhos, pensa-se em palavras". Será que a alternância do sonho (alucinação) e do fantasma (palavras) dependeria de um batimento de pálpebras, da alternância do sono e da vigília? Se nos servirmos das categorias do real, do simbólico e do imaginário e de seu manejo nos nós borromeanos, poderemos ver que "o simbolicamente real", é do real incluído no toro retornado do simbólico: a angustia. "O realmente simbólico" é do simbólico no toro retornado do real: a mentira – é também o sintoma. O "imaginariamente simbólico" é do simbólico incluído no imaginário: a poesia. Enfim, o "simbolicamente imaginário" é do imaginário incluído no simbólico: a geometria1. Não poderíamos acrescentar a esta lista que o "imaginariamente real", seriam os pesadelos, e que o “realmente imaginário”, seriam as alucinações?

Se o pesadelo é imaginariamente real, o real assim imaginarizado esta incluído no imaginário: trata-se do real da proximidade de uma mãe primitiva incluído em uma figura do pesadelo. Mas se o pesadelo é realmente imaginario, trata-se do imaginario de uma alucinação incluído no real do olhar, tem a ver então com o gozo do Outro. Pois a angustia do pesadelo é sentida como gozo do Outro2. Não é sua inexistência que angustia, nem o que seria sua nostalgia (uma nostalgia do maternal perdido), mas ao contrario sua iminência, a iminência de uma presença fantástica, "o íncubo e o súcubo é correlativo do pesadelo; este ser que pesa de todo o seu peso de gozo estrangeiro sobre seu peito e que esmaga você sob seu gozo"; esta presença vem interrogar o sujeito: "é também um ser questionador que se mostra no enigma…" Nesta sorte de experiência pré-subjetiva de um significante opaco (o enigma), o sujeito aparece como "sabido" pelo Outro real, sem que ele saiba do que é feito este "sabido", entre imaginario e real. Este saber cujo objeto pode também se chamar desejo.

Existe um cogito freudiano que se pode escrever: “eu desejo logo eu sou”. Se o "eu sou" é aquele da pulsão, ele implica o desejo enquanto realisado, implica este Wunsch que realisa o sonho sonhando. O desejo é o ponto nodal onde a pulsação inconsciente se liga à realidade sexual; no campo do processo primário, a impulsão se satisfaz essencialmente da alucinação. Freud nos indica isto, há três maneiras de se realizar para o desejo3; a via motora do sonambulismo, a via da ideia delirante que vai do pré-consciente ao consciente, e a via «comum" da confusão alucinatoria (Amentia) e do sonho, que vai do pré-consciente à percepção. O que vem pelo sensorium deve, com efeito, ir pelo motorium4, mas se o motorium não funciona isto volta para trás. A “pretensa regressão" deste retorno para trás em direção à percepção, pode sulcar uma via ao desejo do sonho (que vai se impor à consciência) em direção à percepção; mas se o empurrão do desejo se exerce do pré-consciente ao consciente ao invés de ir em direção à percepção, ele vai se tornar ideia delirante tendo como conteudo sua realisação.

Vamos por de lado o motorium do sonambulismo. As outras duas vias, uma de pensamento em palavras (fantasma) e a outra de imagem visual (alucinação), têm como saída uma ou outra das extremidades do sistema percepção-consciência5. O pensamento conscientedo delírio traz em seu cerne o desejo do delírio; a alucinação e o sonho, com seu conteúdo desejante, investem a percepção. Vê-se por aí o desejo investir, cada uma por uma vez, as duas extremidades do sistema percepção-consciência. Consideramos então que este desejo, que vem do pré-consciente, pode se realizar ao mesmo tempo em sua colocação em imagens (os olhos fechados) e em sua colocação em palavras (os olhos abertos).

Nestas duas extremidades, acontece que desejo e pensamento se cofundem. Certo, acontece que no sonho ou alucinação, a consciência regride à percepção. Mas o "eu sou" do cogito freudiano diz igualmente que o desejo é pensamento da pulsão; o desejo é pensamento do "eu sou" da pulsão, nisto ele é a palavra, ele lhe dá a palavra. É que o pensamento de desejo, que é consciente, constitui, na percepção, a realização do desejo. No nível do desidero, a percepção realisa um desejo que só é pensado pelo sujeito que deseja, é aí, no campo inconsciente submetido ao principio do prazer, que a pulsão se satisfaz da alucinação.

Assim se realisa o desidero freudiano que não é mais que um voto (Wunsch) realizado, um desejo realizado: o conteúdo de uma pensamento sonhador ou alucinatorio, prèviamente remanejado em fantasma de desejo, torna-se consciente; mas foi preciso antes ter sido percebido, pela regressão, antes de se tornar consciente. Por que o sistema P-Cs, percepção-consciência funcionando en boucle, o que é levado ao consciente é igualmente levado à percepção. Se o Wunsch pode se realizar em P, é que o fantasma, que é a expressão inconsciente da moção de desejo, foi percebido no sonho. E sua percepção faz realização. Sonho e alucinação são para Freud as duas grandes figuras do desejo realizado, mesmo que seja um pesadelo. A regressão tópica, que permite alucinar o desejo, leva a loucura à consciência, e é como realizada que ela vai. E se crê no que se realiza.

Outra modalidade do cogito freudiano, poderia se escrever “ou eu desejo ou eu penso”. Ali onde eu desejo, eu não penso. Ou eu desejo em P, ou eu penso em Cs. Então, o desejo só retém do pensamento a parte do fantasma, que dá forma articulada (o verbo des Sache) ao desejo. O desejo assim instaura um corte entre Cs, o consciente dos olhos abertos, que poderão abolir sonho como Amentia, e P, a percepção que clareia aí o que vai surgir. Todo pensamento contém um Wunsch; todo delírio, mesmo se é somente uma defesa, tem a ver com o Wunsch, não somente pela ideia sexual que ele rejeita, mas por seu conteúdo mesmo, sexual ele também; tanto representação quanto defesa, as duas têm fazem parte da ordem sexual, pois a libido freudiana é presença efetiva como tal do desejo.

 Pode-se colocar em continuidade o imaginario do fantasma e o real da percepção, como se fossem duas extremidades do sistema percepção consciência, para enodar a face obscura do real ao imaginario, quer dizer para imaginá-lo. Imaginar o real, é clarear nele o obscuro, montar os enigmas... Já o Hans contara a Freud que a Aninha, sua irmã, tinha vindo com eles antes em Gmuden de férias e que, aliás, ela estava sempre ali com eles. Hans imagina o real (quase no sentido de colorí-lo) deste nascimento e da ameaça de castração que isso fez pesar sobre ele, com a contradição que assinala a presença simultânea do mundo imaginario e do mundo real, ele faz Ana montar na garupa (à dadá) de seu destemido cavalo, e em uma mesma frase ele coloca as rédeas do cavalo ao mesmo tempo nas mãos de Ana e em suas mãos de cocheiro. Do real ao fantasma... há somente um galope.

 Entre o imaginário e o real, o gozo sulca a via do desejo. Lacan figurava em 1977 o engendramento do real, prolongado pelo imaginário, bem no meio do simbólico6. Assim poder-se-ia figurar no “verdadeiro buraco”7 do gozo do Outro, o que surgiu na psicose, as vozes, as alucinações, como sendo do “realmente imaginário”, um real (o real das vozes ou do olhar) incluindo o imaginário delirante. Pode aparecer aí também o significante forcluído, tornado real por sua irrupção no real, que o imaginário permitirá pensar ou perceber. Porque o real onde aparecem os fenômenos delirantes, fica muito especialmente suspenso ao corpo vivente, o psicótico é o objeto do gozo do Outro que ele encarna enquanto olhado, escutado e sabido, pelo Outro.

Os corpos, que fazem parte do real, isso sonha, isso faz pesadelos; isso faz parte do imaginário e está em continuidade com o real. O fechamento do campo do gozo pela continuidade imaginário-real, IR, mostra que é preciso passar pelo real para atingir o imaginário; mostra também que, para atingir o especular em um análise com o psicótico, é preciso atravessar o real, o real das alucinações, o do simbólico das palavras, e o da transferência.

Ora a superposição do imaginário e do real, proposta por Lacan, vem modificar este imaginário: o corpo, o saco de pele que sonha não é mais somente fantasma ou imagem, é gozo. E o real uma vez prolongado por um imaginário, que distinguindo-se do significado, pode  figurá-lo (representá-lo), o real perde um pouco de sua invisibilidade, enquanto que o imaginário se fica superposto “tim-tim por tim-tim”, não permite somente pensar o corpo, mas sim fazer corpo. É com este imaginário modificado que o analista vai trabalhar, modificado em relação ao especular puro.

O analista assim pode intervir realmente sobre o imaginário da alucinação para articulá-lo ao imaginário delirante ou para reduzí-lo ao simbólico. Ou bem ele pode intervir pela via de uma intuição imaginária afim de atingir o real do pesadelo (o gozo materno) para ligá-lo ao imaginário da sonhadora e assim construir um pedaço de simbólico. E em consequência uma possibilidade de recalcamento.

Distinguir a hiância entre real e imaginário, como propõe Lacan em 1978, seja a distância entre real e fantasma, permite questionar a cura (em francês guérison) da neurose e o final da análise. Manter a brecha aberta entre real e imaginário não seria interrogar a distância entre o real do vivente e o gozo do corpo, “este miolo incandescente que quer evitar o sujeito pensante”8? Não seria tentar distinguir o buraco imaginário dos orifícios corporais, do buraco do real por onde a vida se esvai? Não seria interrogar a distância entre o sujeito acéfalo da pulsão, e o corpo assexuado do gozo do Outro? Colar a coisa enquanto imaginarizada, ao real enquanto representado, isto que devemos fazer, diz Lacan, não é uma maneira de contornar esta Spaltung entre corpo e gozo, gozo que no final das contas só se “pega” do corpo? Excluido do sentido, ponto último da pulsão, lugar da ausência de um Outro, o gozo do outro é o único “verdadeiro buraco” onde “se recorta o padrão (o modelo-padrão) do corte pulsional ao longo dos viézes do desejo.”

Será que nós, corpos falantes e sonhantes que somos, não sonhamos com o estofo do qual somos feitos? Mas, apesar de tudo, não sonhamos nós do estofo mesmo do qual fomos tecidos, já que é no corte, que um bater de cílios oferece ao olhar, que podemos agarrar nossos sonhos?

Notas Bibliográficas:

1 J. Lacan, L’insu que sait del’une bévue s’aile à mourre, 15 de março de 1977.

2 J. Lacan, sem. « A Angustia » 12 de dezembro de 1962.

3 S. Freud, “Complemento metapsicológico à teoria do sonhos”, Metapsicologia.ESB.

4 J. Lacan, SEM. “Os conceitos fundamentais...”, Seuil, p. 141.

5. S. Freud, “Cartas à Wilhelm Fliess”, PUF, carta 112.

6 J. Lacan, L’insuccès que sait de l’une-bévue s’aile à mourre, 8 de fevereiro de 1977.

7 Este “falso buraco, completado por uma reta infinita, é a inibição no pensamento no lado direito do nó” (o lado direito, no sentido contrário seria o avesso. NT) 

 

Solal Rabinovitch

Trad. : Lélia Dias

 Auteur:  Solal Rabinovitch

Tradutor : Lélia Dias