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Projeto Circuito para a Formação - Elisa Arreguy

elisa arreguy maia¹

 

[...] a pesquisa sobre a maneira de Freud, a análise do debate de 1927
e as referências recorrentes de Lacan à análise leiga
impuseram a hipótese de um retorno a Freud, por parte de Lacan,
igualmente no que toca à questão da formação.
TARDITS, 2003, p. 107.

 

Apresentação

Durante o ano 2015 trabalhamos junto à Escola, Aleph - Escola de Psicanálise, algumas considerações sobre nosso modo de trabalhar a formação permanente. São considerações que dizem respeito ao tempo de nossa escola. Fizemos 20 anos de trabalhos. Um trabalho árduo e minucioso transcorreu sob este nome: Aleph. Um lugar de escola – o acolhimento nos trouxe um momento de conclusão.

O ponto marcado fecha a linha do corte, uma nova série pode ser relançada e, a partir de intenso estudo, Aleph - Escola de Psicanálise passa a ofertar outra modalidade de frequentação da escola: Participante Inscrito.² Agora nos dirigimos a um ponto futuro da escola. Nesse sentido, se nos impõe repensar nossa dinâmica de trabalhos, dos encontros entre os membros e destes com outros psicanalistas, e mesmo com não analistas que se interessam pela psicanálise e pela escola.

O presente texto apresenta, na confluência entre o ensino e a transmissão, uma proposta que recoloca a questão da formação do psicanalista, esse ponto duro, impossível e que, portanto, não cessa de não se inscrever. Em um importante texto sobre o assunto, Annie Tardits lembra que, quanto à formação dos analistas, Lacan, “à maneira de Freud”, não desconsidera a técnica senão afirma que ela permanece submetida à amarração das três bordas do saber: o saber teórico, o saber clínico e o saber fazer. Pode-se perguntar se nessa amarração, o saber clínico viria, supostamente, no lugar de um saber “prático”?

O que, então, vem a ser o saber fazer? Qual a diferença entre saber “prático” e o saber fazer? Ora, a tríade desfaz a dicotomia entre prática e teoria. A questão, ao que parece, diz respeito ao que não se consegue ensinar, mas se transmite na psicanálise em intensão. A questão que Annie Tardits se faz é como promover, no próprio saber fazer, a amarração do tripé freudiano. E aqui surge algo muito importante: não basta este tripé: a arte da interpretação, o manejo da transferência e a luta contra as resistências. Além dessas dimensões, Freud acrescenta aí o tempo. Freud escande o tempo em dois modos: “a duração da análise” e “o momento oportuno”.

Tardits está chamando nossa atenção para o fato de que o tripé técnico que constitui o saber freudiano – interpretação, transferência, resistências – encontra-se amarrado desde o início do tratamento, tanto por Lacan quanto por Freud, pela problemática do tempo. “Os decursos psíquicos entre consciente e inconsciente têm suas condições temporais particulares”.³

A técnica é uma questão histórica na psicanálise e para a psicanálise. Nesse sentido, Tardits (a partir de Lacan em A questão da técnica, ensaios e conferências, 1958), lembra que há, na modernidade, uma relação específica dos sujeitos à “técnica”. Particularmente, há que lidar com a alienação dos sujeitos da civilização científica, pois há um perigo na técnica moderna, uma vez que ela estabelece uma relação ambígua com a verdade.

Para Heiddeger (a quem Lacan também recorre nessa questão) a relação dos modernos com a técnica provoca o falante a constituir o real como “acervo” (Bestand). Em vista disso, Heiddeger afirma o questionamento como aquilo que pode salvar o homem desse elemento monstruoso que faz da técnica moderna o maior perigo. E é aí que ele afirma o pensar poético como “piedade do pensamento”, o lugar em que se pode reencontrar a coisa poética (campo da estética).

Sabemos que o tempo opera na escola, opera na nossa escola, seja através das análises de seus analistas, seja pela experiência do passe e pela própria experiência da instituição. Mas sempre será preciso abrir espaço aos que chegam. E então, hoje, se nos impõe repensar como trabalhar de modo ao mesmo tempo acolhedor e rigoroso com os que chegam.

Pensamos que o rigor leva em conta necessidades diferentes e que essas diferenças se apresentam no tempo. O que antes era possível, era viável e bastava vem a se apresentar, no decurso do tempo, como a face de uma acomodação, de pontos surdos. Eis uma das formas de pensar, no trabalho coletivo, o freudiano “momento oportuno”. Se o real não pode ser posto num “acervo” de saber, o pensamento que faz acervo também não pode vigorar na escola. O real é sempre o impossível. E o discurso psicanalítico é aquele que persiste ao tratar o real pelo simbólico. O saber aí é não uma reserva de saber já sabido, mas aquele que se extrai no discurso a partir, sempre, de uma posição ética, estética e política.

Na Ata de Fundação da EFP, em 1964, Lacan enuncia a fundação da escola: “Fundo – tão sozinho como sempre estive [...]”,para restaurar a “lâmina cortante da verdade” freudiana. E no próprio gesto de fundação ele reafirma o “[...] trabalho indissolúvel de uma formação a ser realizada”. Seguem-se três seções para a escola: psicanálise pura, psicanálise aplicada e inventário do campo.

Annie Tardits nos lembra que a seção de psicanálise pura é a psicanálise em intensão – “[...] ou seja, práxis e doutrina da psicanálise propriamente dita, que não é outra coisa – o que será estabelecido em seu lugar – senão a psicanálise didática”.

Na sequência desse enunciado, Lacan coloca claramente a necessidade de a escola oferecer, assegurar, “um controle [supervisão] qualificado na escola”. Vamos lembrar que a fundação da escola de Lacan resulta de suas críticas continuadas ao modo de formação praticado pela Associação Internacional de Psicanálise (IPA), que culminaram com sua “excomunhão”.

Portanto, quando ele afirma que a práxis da psicanálise não é senão a psicanálise didática, ele vai recolocar a questão da análise dos analistas, mas de modo radicalmente diferente do que era produzido por uma hierarquia piramidal, de casta, que “os didatas” encarnavam então. Fica explícito ao longo do ensino de Lacan que se deve pensar a didática a partir da temporalidade propriamente analítica, e não burocraticamente. Uma análise se mostrará ou não didática, mais exatamente, terá sido didática na medida das provas que der o analisante. 

Na sua Nota anexa à Ata de Fundação lemos: ”Um psicanalista é didata a partir da realização de uma ou mais psicanálises que se revelaram didáticas”.No texto, observamos que Lacan diz “rompo com standards afirmados na prática didática”. Ele repensa a didática psicanaliticamente, para fazer avançar “o questionamento da rotina estabelecida”. E arremata: “Esta Ata de Fundação considera nulos os simples hábitos”.

No texto já citado acima, Tardits nos lembra ainda que a psicanálise pura,da Ata de Fundação, deve ser escutada também como discurso analítico, o que implica atenção tanto à psicanálise em intensão quanto à psicanálise em extensão. Ficam postos, pois, dois lugares de formação: a análise pessoal e o trabalho no coletivo, isto é, dos analistas na escola, na interlocução constante com outros analistas e não analistas.

 

Projeto Circuito para Formação – uma superfície

Na consequência da implantação, na escola, do modo de trabalhar em Circuitos,6 apresenta-se aqui uma proposta que visa acolher não apenas aqueles que estão chegando à psicanálise, mas também àqueles que estão chegando à escola. Trata-se de proposta voltada para a questão da formação dos analistas. Desde já ressalta-se aqui que “formação” jamais entendida, como bem lembra Annie Tardits, “enquadrar e normalizar”, mas, nesse momento, formação entendida como a posta em ato de uma superfície comum de trabalho. Visa-se aqui também recolher e pôr a trabalho os efeitos, ainda, de nossas experiências recentes.7

Deseja-se também ressaltar um aspecto que, entendo, deve-se observar entre trabalhadores do inconsciente: colhida no trabalho na escola e de escola, esta proposta não é meramente uma resposta intelectual às críticas e aflições de um tempo, mas uma escolha forçada pela posição do inconsciente. Há aqui, então, o entendimento de que fazer escola responde ao tempo de um coletivo de trabalho e à temporalidade inconsciente singular – “decursos psíquicos” em suas “condições temporais”, da qual devemos estar advertidos.

Recolocar, questionar nossa política de formação vem retificar um certo laisser faire quanto ao modo de frequentação da psicanálise; laisser faire, é ainda Tardits quem nos lembra, que é um efeito bastante generalizado a partir de um certo reducionismo no entendimento do ensino de Lacan.

Como sabemos, a questão da formação dos analistas será em uma escola – sempre –dinâmica, isto é, não se pode pretender ter encontrado a “fórmula” correta e fim; a rigor, não ficará terminantemente acabado nunca. Ir mais além da instituição espontânea, no caso, deve levar em conta, que a questão da formação/formações do analista está pautada no desejo do analista. Para tanto, uma vez discutida e elaborada uma proposta, ela irá incidir sobre a estrutura da escola. Nessa tarefa, uma questão relançada entre nós, nos orienta: “a quem nos dirigimos?”, “para quem falamos?”.

Em cada uma das instâncias da escola deve-se ter em mente essa questão, pois, sabemos com Lacan, o endereço define o estilo do que se faz.8 As atividades do Projeto Circuito transcorrerão paralelamente às outras atividades da escola, são suplementares a elas; quem se decidir por uma não ficará impedido de frequentar as outras. E, mais ainda, a prática do cartel – um dos pilares de uma escola – será não só mantida, mas incentivada a partir das novas atividades.

Aquele que faz ou deseja fazer sua formação em nossa escola será convidado a se inteirar do Projeto Circuito para Formação (PCF) e, antes de se integrar ao trabalho, deverá ser encaminhado a uma das comissões da escola encarregadas disso para uma entrevista inicial. A partir de então, se vier a fazer sua inscrição no PCF, a Comissão do Projeto Circuito se encarrega de traçar, junto com o próprio postulante e a partir do que a escola oferta, alguma direção no movimento de cada um para a formação. Sobretudo o Projeto Circuito para Formação abre um espaço específico na rotina da escola para se discutir a questão do interessado na formação que a escola garante.9

Lacan10 recomenda: “que a Escola garanta que um analista depende de sua formação”, logo em seguida à enunciação de que “o analista só se autoriza dele mesmo”. Aqui se colocam duas das mais importantes questões a ser amplamente debatidas: uma questão, o princípio do “autorizar-se”, que é tão mal interpretado a ponto de gerar o laisser faireque percebemos como nocivo à transmissão; e a outra, a questão da garantia.

Ora, dizer que “a escola garanta que um analista depende de sua formação” não é nem de longe dizer que a Escola garante a nominação de psicanalista. Que o psicanalista dependa da formação que a Escola propõe implica que a Escola tenha, claramente, uma política de formação – lembrando-nos de que o ensino de Lacan veio dizer que, em psicanálise, aquilo que se faz pode, e deve, ser escrito, vale dizer, logicizado e tornado público. E se a formação é permanente, “depender de sua formação” é também que um analista se comprometa com a escrita frequente daquilo que ocorre em sua formação. Que ele encontre um lugar para fazê-lo permanentemente.

Mais uma vez voltemos à Ata de Fundação, para ressaltar que a seção de psicanálise pura, isto é, psicanálise em intensão desdobra-se em três subseções: doutrina da psicanálise pura, crítica interna de sua práxis como formação e controle (ou supervisão) dos psicanalistas em formação. O compromisso com a escrita faz parte de cada um desses momentos; elaborar sua práxis e dar a conhecer algo dessa elaboração. Algo cai da pena do sujeito e, desde o campo do Outro, pode retornar como um fragmento de saber.

Se o analista se autoriza dele mesmo, isso se dá numa certa lógica temporal – “tempo de compreender” que sucede a um “instante” – esse real do tempo, que antecipa em uma fulguração algo que o tempo de compreender se dedica a elaborar. Mas o “autorizar-se”, é “também (autorizar-se a partir) de alguns outros”. Cabe à escola ser o lugar de pensar sobre isso, de falar disso quando e sempre que necessário.

Cabe, pois, à escola recolher as marcas dessa elaboração, devolvê-las, manter aberto esse campo. E ainda mais, uma escola oferece o dispositivo do Passe para a verificação disso, quando e se um sujeito desejar testemunhar. O espaço privilegiado de interlocução daqueles que desejam participar desse novo momento de formação estará, por sua vez, permanentemente em elaboração na escola através da comissão de trabalho criada especificamente para essa tarefa, orientada por uma política de escola, política traçada a partir da lógica da escola, trabalhada no coletivo em tempos diferentes e conduzida pelas Comissões de Ensino, de Acolhimento e de Direção.

Desse modo, o conjunto da escola estará, em tempos diferentes e em modos diferentes, envolvido com a nova modalidade de trabalho. O PCF, quanto aos conteúdos abordados, não obedecerá a uma ordenação de ‘primeiro, segundo, terceiro’; uma vez que a ordem há de ser produzida pela Comissão em articulação com o postulante à formação e pelas condições de disponibilidades produzidas na escola, sempre, sob a égide da lógica de escola, d’escola.

Embora o Projeto Circuito seja voltado para aqueles que chegam à escola ou à psicanálise – o que não é a mesma coisa –, vale lembrar que os que chegam estão convidados à produção de uma superfície comum de trabalho. Isso vale também para aqueles que já frequentam a escola e que, ainda assim, queiram consentir com a nova proposta de formação.11

 

Notas

1 Este texto é a resultante do projeto originalmente apresentado e debatido na escola durante o ano 2015.

2 BRANDÃO, 2015.

3 FREUD, (1927) 2003, p. 16.

4 LACAN, (1964) 2003, p. 235.

5 LACAN, (1964) 2003, p. 239.

6 Circuitos dos Fundamentos, Circuitos de Leitura e Circuitos de Investigação (veja-se agenda da escola de 2015).

7 Ver MAIA, 2014. p. 185.

8 “L’style c’est l’homme [...] a qui l’on s’adresse”. LACAN, (1966) 1998, p. 9.

9 “Um princípio: o psicanalista só se autoriza por si mesmo. [...] isso não exclui que a Escola garanta que um analista depende de sua formação” (LACAN. 1967, p. 29). “Que a Escola possa garantir a relação do analista com a formação que ela ministra, está então estabelecido” (LACAN. 1967, p. 30).

10 LACAN, 1967, p. 26; LACAN, (1967) 2003, p. 248.

11 Ver nesta agenda, a programação proposta para este ano.

 

Referências

BRANDÃO, M. Notas sobre acolhimento e inscrição dos que se aproximam buscando uma formação em psicanálise na Escola. Apresentado no AEP, abr. 2015. Inédito.

FREUD, S. A questão da análise leiga (1927). Tradução de Eduardo Vidal. A análise é leiga - da formação do psicanalista, Rio de Janeiro: Escola Letra Freudiana, n. 32, 2003. p. 13.

LACAN, J. Abertura desta coletânea. In: ______. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Revisão técnica de Antonio Quinet e Angelina Harari. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 9-11. (Campo Freudiano no Brasil).

LACAN, J. Ata de fundação. Nota anexa. Preâmbulo. Documentos para uma Escola, n. 0. Letra Freudiana. Rio de Janeiro: s/d. Circulação Interna.

LACAN, J. Ato de fundação (1971). In: ______. Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 235-247. (Campo Freudiano no Brasil).

LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da escola. In: ______. Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 248-264. (Campo Freudiano no Brasil).

MAIA, E. A. O estofo e a trama, a corda, o acordo. Transfinitos,12. Belo Horizonte: Aleph - Escola de Psicanálise, n. 12, 2014. p. 185.

SAFOUAN, M. Jacques Lacan e a questão da formação dos analistas. Trad. de Leda Mariza V. Fischer. Porto Alegre: Artes Médicas. 1985.

TARDITS, A. O controle – alguns nomes para um elo singular. Carnets, Paris: École Sigmund Freud, n. 84, jan./fev. 2012.

TARDITS, A. Sobre as formações do psicanalista. Revista Letra Freudiana, A análise é leiga - da formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Escola Letra Freudiana. n. 32, 2003. p. 107.